Thursday, July 12, 2012


O sol ainda nem tinha nascido quando sai da cama. A verdade é que mal consegui pregar os olhos depois do baile de formatura. A idéia de que aquela era minha última noite no castelo, no dormitório que dividi com quatro amigos por sete anos e que nunca mais veria aquele quarto circular com cortinas azuis estreladas me impediu de dormir. Odiava mudanças. Quando fiz 11 anos e recebi a carta de Hogwarts, por mais ansioso que estivesse para começar meus estudos, vim cheio de receios por estar deixando uma vida confortável que conhecia. Agora, depois de sete anos, o único lugar onde me sinto confortável é em Hogwarts e voltar significa uma nova mudança.

Desisti de tentar descansar e sai do quarto. O salão comunal parecia estar deserto, mas quando alcancei metade da escada vi que Amber estava debruçada em uma das janelas ainda de pijamas. Ela se assustou quando parei ao seu lado, mas sorriu e me beijou antes de voltar a contemplar o lado de fora com um suspiro. A torre da Corvinal tinha a melhor vista do castelo. Das nossas janelas arqueadas era possível ver o lago negro, a orla da floresta, o campo de quadribol e os jardins das estufas de Herbologia. Estávamos diante da janela que tinha uma vista privilegiada do lago negro e das estufas e dava para ver a cápsula do tempo que íamos enterrar em algumas horas debaixo da árvore mais próxima ao lago.

- Não quero ir embora, Rup – disse de repente, apoiando a cabeça em meu ombro – Hogwarts é a minha casa.
- Entendo a sensação. Quando cheguei aqui tinha acabado de perder minha mãe e a idéia que tinha de um lar estava despedaçado. Hogwarts fez com que eu soubesse o que é ter um lar outra vez.
- Eu não sabia o que era me sentir em casa desde que tinha seis anos. Passei mais tempo aqui com vocês do que com meus pais adotivos. Essa é a única vida que conheço. Como vai ser não voltar a King’s Cross em 1º de setembro e não ver você e Kaley no trem?
- Não embarcarmos no trem não significa que não vamos mais nos ver. Eu sou seu namorado agora e Kaley vai estar com você todo dia na Academia de Auror.
- Vou sentir tanta falta desse castelo... – ela olhou para a janela outra vez – Estava apavorada quando embarquei no Expresso de Hogwarts e durante a seleção, mas me acalmei um pouco quando o chapéu me colocou na Corvinal, essa havia sido a casa de Russ quando esteve aqui. E quando entrei nesse salão comunal pela primeira vez e vi que era exatamente como ele havia dito, pude ouvir a voz dele me contando sobre o castelo alguns meses antes de tudo desabar. Fazia muito tempo que não pensava em meu irmão nem ouvia sua voz e isso aconteceu no instante em que pisei aqui. Naquele momento eu soube que eu pertencia a esse lugar, que aqui era a minha casa.
- Minha mãe também foi da Corvinal. Papai e Becky torciam para que eu fosse para a Grifinória como eles, mas quando sentei no banco, tudo que pensava era “Por favor, Corvinal. Quero ficar perto da minha mãe, sei que parte dela ainda está aqui”. Não sei se o chapéu seletor me ouviu, mas gosto de pensar que ele quis atender ao meu pedido.
- Acho que ele colocaria você aqui de qualquer forma, mas ele ouviu o seu pedido – ela voltou a me encarar sorrindo – Nunca contei isso a ninguém, mas também pedi para ser selecionada para a Corvinal.
- Viu? Já estávamos destinados a ficarmos juntos. Escolhemos a mesma casa – disse provocando, sabia o quanto ela odiava e não acreditava nesse tipo de coisa.

Ela fez uma cara séria e a puxei para um beijo que logo desfez a breve irritação. Voltamos a contemplar os jardins do castelo bem na hora que o sol começava a nascer. Vimos os primeiros raios baterem no lago negro e transformarem a água escura em um tapete brilhante e começar a iluminar todo o terreno. O reflexo do sol no vidro das estufas me deixou cego por alguns instantes, mas ainda era a visão mais bonita que alguém poderia ter. Se aquela seria minha última imagem dos terrenos de Hogwarts do alto da torre da Corvinal, então eu não poderia ter pedido por uma melhor.

Aos poucos os alunos do 7º ano começaram a aparecer nas escadas, todos despenteados e com cara de sono, se espremendo nas janelas para contemplar o último nascer do sol em Hogwarts. Ficamos debruçados nelas por um bom tempo admirando a vista, em silêncio. Não precisávamos conversar, todos sabiam o que o outro estava pensando. Por volta das 8h começamos a tomar banho e pegar as coisas que havíamos separado durante a semana. Era hora de enterrar a cápsula do tempo.

Toda a turma do 7º ano já caminhava na direção da árvore onde a cápsula estava encostada, vazia, e os alunos de Durmstrang e Beauxbatons também nos acompanharam. Cada um carregava pelo menos um item nas mãos, mas muitos vinham com as mãos cheias. Sheldon era um deles e quando perguntei o que eram todos aqueles rolos de pergaminho, disse que era a fórmula para criar fogovivo. Ele não pretendia mais usá-la, então decidiu enterrar. Tio Ben foi nosso mestre de cerimônias, munido de uma câmera para fotografar cada segundo, e como a idéia da cápsula havia sido minha, inaugurei a brincadeira.

- Vou colocar nela meu distintivo de Monitor-Chefe e uma cópia do meu livro – disse depositando as duas coisas dentro do cilindro. O distintivo de Monitor normal ficaria comigo.
- Está autografado? Esse livro vai valer uma fortuna daqui a 15 anos! – Jamal brincou e todos riram – Bom, eu vou colocar algo muito valioso... – ele ergueu um caderno e Julian engasgou quando tentou não rir – Meu caderno de anotações sobre as garotas de Hogwarts... – ele colocou o caderno sobre meu livro e as meninas fizeram caretas de reprovação – E também uma foto da Armada do Dragão.
- Calma, meninas! – Penny se aproximou com um caderno parecido nas mãos – Minha contribuição é o nosso caderno sobre eles – e as meninas começaram a aplaudir e assobiar empolgadas.
- Minha contribuição é um livro também, mas menos polêmico – Julian se adiantou e reconheci o livro que usamos para a poção de animagia – É um livro de poções que foi muito útil esse ano e minha medalha de serviços prestados à Comunidade Bruxa dada pelo tio Quim.
- Também estou deixando minha medalha na cápsula, junto de algumas escamas e um vidro com um pouco de sangue de dragão romeno – Lena depositou suas coisas com cuidado no canto do cilindro.
- Eu deixo meu cubo mágico que levei três anos para montar, porque se daqui a 15 anos eu achar que não posso fazer alguma coisa, ele vai me lembrar de que se eu consegui montá-lo, posso fazer qualquer coisa – JJ colocou o cubo na cápsula enquanto todos riam.
- Eu vou colocar o pergaminho com meu nome que o Cálice de Fogo sorteou e cartões com informações básicas feito por vocês para ajudar minha memória falha, porque sem eles eu teria passado muito tempo perdida – Arte tirou-os do bolso e colocou perto do cubo de JJ.
- Minha contribuição são três coisas – Clara se adiantou e abriu a mão – Meu distintivo de Monitora, porque até hoje não entendi o que deu no professor Yoshi para me dar ele – todo mundo começou a rir – Esse origami de cubo, porque ele tem um significado importante que não interessa a todo mundo – alguns começaram a protestar querendo saber o que era, mas ela ignorou – E por ultimo, mas não menos importante, os botões da roupa de James que arranquei ainda no 1º ano, quando resgatamos Julian das mãos dele, Graham e Dean. Dessa forma, em 15 anos, você ainda vai saber que eu já podia acabar com você quando tinha só 11 anos – agora todo mundo encarnava James, que levou a brincadeira numa boa.

As contribuições continuaram por quase uma hora. Hiro colocou um Tsuru de papel e seu distintivo de Monitor, Haley deixou sua medalha de serviços prestados à Comunidade Bruxa e um apanhador de sonhos que ganhou de Justin e ele também deixou a sua medalha, junto de manual para matar um vampiro com dicas de feitiços de fogo. Tuor deixou uma cópia dos papéis que preencheu ao se inscrever para aluno de intercâmbio em Hogwarts e uma carta escrita para o Tuor do futuro. Keiko também deixou uma carta para ela mesma, MJ guardou sua braçadeira de capitão de quadribol e uma cópia da partitura da 1ª música que compôs com Lenneth, Amber colocou um exemplar do Profeta Diário daquele dia e seu distintivo de Monitora, Zach seu troféu de Artilheiro do Ano de 2016 e Kaley o 1º pomo que capturou. James também deixou sua braçadeira de capitão do time de quadribol e seu distintivo de Monitor, Devon deixou um desenho feito por ele mesmo da AD, Lenneth um pingente em forma de bumerangue que havia ganhado de Arte e também o pergaminho com seu nome selecionado pelo Cálice, e Gabriela fez o mesmo.

Eram tantos alunos deixando suas melhores lembranças dos sete anos de estudo que quando encerramos, o cilindro estava entupido de coisas. Fechei a tampa com a ajuda de Jamal e a lacramos com um feitiço resistente, enterrando no buraco profundo que Hagrid já havia cavado. Aquela cápsula era a certeza que tínhamos que, não importa o caminho que cada um siga daqui pra frente, em 15 anos estaríamos todos juntos outra vez diante do lugar que nos uniu.

As carruagens de Beauxbatons já estavam prontas para partir quando voltamos ao pátio e o navio de Durmstrang começava a se aproximar. Os alunos começaram a se despedir dos amigos que fizeram durante o ano e foi um festival de choro. Vi Arte abraçada a Lenneth e Gabriela pendurada no pescoço de Clara e as quatro estavam com os olhos vermelhos de tanto que choravam, parecia que nunca mais voltariam a se encontrar. Devon veio se despedir de Amber e eu e apertamos as mãos com entusiasmo.

- Espero você na França, Rup! Você também, Amber. Temos um verão inteiro pela frente antes de virarmos oficialmente adultos.
- Prometo que vamos antes de setembro.
- Dev, vamos logo! As carruagens já vão sair! – Gabriela acenou de longe e ele deu um abraço em Amber.
- Vou cobrar! – e correu para junto dela.

O navio de Durmstrang aportou o mais próximo que pôde da beira do lago e os alunos usaram os barquinhos encantados de Hagrid para subir a bordo. Os alunos de Beauxbatons ainda entravam nas carruagens quando um apito estrondoso ecoou pelos jardins e o navio afundou, desaparecendo nas águas escuras do lago. Em seguida foi a vez dos cavalos alados de Maxime relincharem e levantarem voo, carregando as carruagens com os alunos, e logo sumiram das nossas vistas.

- É, acho que agora é hora de ir embora... – ouvi Clara dizer enquanto Hiro a abraçava tentando animá-la.
- Vamos pra casa, pessoal – Julian disse tentando animar um pouco e o seguimos para dentro do castelo.

Meu malão já estava arrumado e dei uma última olhada no dormitório que tanto gostava antes de descer para o salão comunal e encontrar Amber, Julian e Justin. Foi muito duro deixar aquela torre e quando a águia de bronze se fechou em nossas costas, senti que uma fase da minha vida se fechava junto com ela. Possivelmente a melhor fase, mas que agora era passado.

A caminhada até a estação foi longa. Ninguém quis usar as carruagens como os demais alunos, preferimos atravessar a estrada a pé. Já estavam todos a bordo do trem quando chegamos à estação de Hogsmeade. Os monitores do 7º ano já tinham aposentado os distintivos e deixamos a monitoria dos vagões para os mais novos enquanto nos acomodávamos em um deles. Estávamos espalhados pela cabine tentando acomodar as mochilas quando senti o trem começar a andar. Olhei pela janela e vi o castelo ficar cada vez menor, até desaparecer por trás das colinas. Minha última visão de Hogwarts foi da luz do sol batendo na torre da Corvinal.

A nostalgia tomou conta de todo o trajeto até Londres. Entre partidas de snap explosivo e desfalque no carrinho de guloseimas, lembramos histórias engraçadas dos sete anos juntos e não vimos o tempo passar. O trem parou de repente e vi a plataforma 9 ¾ do lado de fora da janela. Estávamos em King’s Cross.

- Meus amores! – Kaley se atirou pra cima de Amber e eu quando desembarcamos na plataforma – Prontos pra ir pra casa?
- Já estava em casa – Amber respondeu desanimada.
- Não, não estava. Hogwarts foi nossa casa por sete anos, mas não é mais – disse segurando a mão das duas – Casa é onde estão as pessoas que você ama.
- Exatamente. Nossa nova casa é aqui, em Londres, e nós vamos ser tão felizes quanto fomos em Hogwarts.
- Desde que estejamos juntos, certo? – Amber se animou um pouco.
- Sempre - respondemos ao mesmo tempo e, juntos, saímos da estação sem olhar para trás.

Hold on, to me as we go
As we roll down this unfamiliar road
And although this wave is stringing us along
Just know you’re not alone
Cause I’m going to make this place your home

Settle down, it'll all be clear
Don't pay no mind to the demons
They fill you with fear
The trouble it might drag you down
If you get lost, you can always be found

Just know you’re not alone
Cause I’m going to make this place your home

Home – Phillip Phillips

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E encerro assim a participação do Rupert nesse blog. Ele começou como um personagem que deveria ser secundário, mas com o tempo foi ganhando espaço no meu coração. De alguém com a certeza de que seria um Curandeiro, se transformou em um escritor com futuro promissor de uma hora para outra, conquistou a garota dos seus sonhos e sofreu os baques de uma guerra, mas prometo que ele vai ficar bem.

O Hogwarts Reloaded encerra suas atividades hoje. Com o tempo, cada personagem vai continuar a contar suas histórias, mas em outro espaço ainda em construção. E por enquanto, nenhuma outra turma está prevista para aparecer por aqui. Sendo assim...

Malfeito Feito.